Jo Cox: a morte da moderação do ódio

Article @ P3, published 17 June 2016

Poucas vezes pensamos nas consequências das palavras. Nas verdadeiras consequências de se propor, dia sim, dia não, que a maior ameaça à nossa existência é a religião “X”, que estávamos melhor antes de “Y”. Que mal trarão ao mundo as nossas mal-enjorcadas opiniões, a nossa possível ignorância, o nosso proselitismo quando reivindicamos a retoma dos “valores nacionais” e a redução da imigração? A que pode levar, nesta Europa tolerante, propagandear o ódio e o medo?

Em Inglaterra — mãe da democracia liberal —, palavras nunca questionadas levaram à morte de uma deputada. Jo Cox, de 41 anos, trabalhista pela região de Batley and Spen, no Norte de Inglaterra, foi assassinada esta quinta-feira, 16 de Junho, em plena luz do dia, numa rua movimentada, por um simpatizante fascista. O alegado homicida, Tommy Mair, terá sido assinante da revista de extrema-direita “South African Patriot”, cujos artigos, entre outros temas, defendiam o Apartheid e a supremacia branca. Testemunhas do crime declaram a vário canais de televisão que Mair, durante o ataque, terá gritado “Britain First!” (“Grã-Bretanha à Frente” ou “Grã-Bretanha Primeiro”), o nome de um grupo nacionalista e islamofóbico inglês. O mesmo cujo líder virou as costas ao novo presidente da câmara de Londres, Sadiq Khan, durante o discurso de vitória.

A morte de uma mulher jovem, de uma política prometedora, de uma mãe de duas crianças pequenas, é, por si só, uma tragédia, mas a morte de Jo Cox não se deu num vácuo, numa ausência de contexto político. Cox era uma defensora acérrima da causa palestiniana, da revolução síria, dos refugiados pedindo asilo na Europa e das comunidades migrantes no Reino Unido. Eleita somente no ano passado, Cox usou o seu primeiro discurso no parlamento britânico para homenagear a diversidade étnica e cultural do seu círculo eleitoral. No dia em que foi eleita, foi num centro islâmico que a imprensa a encontrou para fazer declarações e foi de cabeça coberta por respeito que as fez, exultante, rodeada de apoiantes de várias fés.

Nos últimos meses, sob o pretexto do referendo sobre a filiação do Reino Unido na União Europeia, grupos diversos (e não só do lado “out”) têm vindo a usar os mais espúrios argumentos. Mas principalmente do campo Brexit vários houve que abraçaram campanhas opondo-se directamente aos valores que Jo Cox defendia. Dos eurocépticos UKIP vieram imagens de massas humanas, evidentemente não-brancas, supostamente tentando entrar no país. “A UE falhou-nos”, lê-se no mais recente “placard” da campanha pela saída. Num “tweet” recentemente publicado (e rapidamente apagado) do grupo Leave.EU, as palavras “o extremismo islâmico é uma ameaça real ao nosso modo de vida” sobrepunham-se a uma fotografia de soldados do Estado Islâmico. O muito badalado “factor medo” da campanha pelo “in”, alegadamente apelando ao medo do desconhecido para garantir votos, foi igualado nos extremos da campanha “out” pela oratória xenófoba, pelo racismo impúdico e pelo patriotismo militante.

Jo Cox era uma apoiante da permanência do Reino Unido na União Europeia. A sua morte veio a uma semana do referendo, num período em que o volume de todos os âmbitos políticos tinha sido posto no máximo, como um debate no qual os participantes se interpelam gritando, mãos agitando freneticamente no ar, enquanto o moderador contempla a cena placidamente.

Talvez o mais grave delito cometido até à morte de Jo Cox tenha mesmo sido a imprevidência com que as palavras têm sido empregues e a displicência de quem as tem que moderar. Acima de tudo, a maneira como o tratar do outro na via pública — seja no parlamento ou nos meios de comunicação — se tem difamado sucessivamente, ao ponto de a agressão verbal e o escárnio se tornarem vulgares e irrepreensíveis. E, desse mesmo modo, como a linguagem do ódio tem sido aceite sob a máscara da liberdade e da democracia.

Como dizia um amigo — possivelmente não por total coincidência um muçulmano inglês — do Norte, como Cox: “Aqueles que, na política e na imprensa, impulsionam agendas de divisão e de ódio, precisam compreender ao que as suas acções podem levar. Haverá muita especulação sobre os detalhes, mas hoje um marido terá que dizer aos seus filhos que a mãe não voltará a casa. Por nada. Nada.”

A morte de Jo Cox não pode ser tomada como um crime simples, somente o acto de um homem com pobre saúde mental. Depois de meses de propaganda racista algo mais que subliminar, o homicídio de Jo Cox é um crime doloso, político — o resultado da retórica venenosa que se tem propagado pelo Reino Unido sem qualquer verdadeira oposição pública.

Porque o preconceito não pode ser aceite como parte de um discurso normal. Há que ser sovado, escamoteado, expelido da via pública. Há que lhe apontar o dedo e dizer que não. Há que ver as coisas como elas são. A preocupação com as consequências das vagas migratórias nem sempre será racista, mas o discurso anti-imigrante é. O desejo de soberania não será sempre xenófobo, mas a linguagem que verdadeiramente dominou a campanha pelo Brexit foi-o, aberta e confortavelmente. Em Portugal, a história ensinou-nos, muito a custo, que quem cala consente e que o ódio consentido é ditador. Ensinou-nos que se não matamos o ódio, o ódio mata-nos a nós. A história veio relembrar o mesmo ao Reino Unido a 16 de Junho.

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